Você é o que você posta? Como o mercado de trabalho lida com as redes sociais


Não é só no LinkedIn que se constrói reputação profissional. Recrutadores e gestores de empresas também estão de olho nas suas fotos e opiniões no ambiente digital – e ficar fora dessa pode significar risco de apagamento

Como diretora de recursos humanos, faz parte da rotina de Juliene Salvan pesquisar, recrutar, entrevistar e contratar profissionais do mercado. Quando está às voltas com um processo seletivo no Grupo Bandeirantes, onde trabalha atualmente, costuma olhar “de forma restrita” aqueles candidatos que não se dedicam a ter um perfil nas redes sociais ou não mantém suas contas atualizadas e engajadas. “Isso pode atrapalhar especialmente quem disputa uma vaga de analista, gestor ou um cargo estratégico dentro da empresa. Até para quem ainda está se desenvolvendo profissionalmente, não ter pelo menos um perfil no LinkedIn, por exemplo, pode ser visto de forma ruim”, diz Juliene.

E se engana quem acredita que o LinkedIn, a principal plataforma voltada para contatos profissionais, seja a única rede utilizada por quem contrata e gerencia. O que você posta no Facebook, no Instagram e no X (o antigo Twitter), também está na mira da turma dos RHs. Segundo Marcia Oliveira, consultora sênior de carreira da Produtive, consultoria de conexões com o mercado, é por essas redes que os recrutadores e chefes conseguem avaliar quesitos como perfil comportamental e inteligência emocional. “Ali pode se ver, na prática, como a pessoa relaciona, quais são seus hábitos e preferências.”

Seja para quem está buscando um trabalho ou quer crescer dentro de uma empresa, estar fora das redes sociais significa risco de apagamento. “Só ter boas entregas e não conseguir mostrar isso de maneira adequada para o mercado, pode ser um entrave sim. A rede social é parte da rota do algoritmo do indivíduo”, diz Marcia.

Você é uma marca

Escritor e especialista em comportamento, André Carvalhal é autor do “Curso Canvas de Marca Pessoal com Propósito”. Ele defende que, com as redes sociais, as pessoas tiveram a chance de fazer algo que antes só era feito pelas marcas: propaganda de si mesmas. “Se você tem uma conta aberta, você é uma marca, independentemente de estar pensando nisso ou não. Quando a gente entra em um perfil, consegue entender quem aquela pessoa significa, do que ela gosta, onde ela vai e como é a sua vida, sendo tudo isso verdade ou não”, explica Carvalhal. “Por meio da autopublicação, as pessoas vão construindo uma imagem”, completa.

“Se você tem uma conta aberta, você é uma marca, independentemente de estar pensando nisso ou não”

Mas tal poder traz responsabilidades. E assim como acontece com as marcas, uma publicação equivocada pode gerar cancelamento. “Se você está nas redes sociais, sua imagem está disponível para o julgamento de outras pessoas. E quem são essas pessoas? São seus clientes, os recrutadores das empresas, seus chefes…”, analisa Carvalhal.

“O ambiente digital não pode ser usado de forma indiscriminada. Você precisa ser estratégico para saber o que postar e como se posicionar”, diz a diretora de RH Juliene Salvan. “Já vimos profissionais serem desligados das redes por fazerem postagens inadequadas, especialmente quando é sobre algum assunto relacionado a respeito à diversidade. O limite da sua liberdade termina quando começa a do outro.”

Não sou obrigado

Com tanto em jogo, há quem prefira se manter distante das demandas de cuidar de um perfil. Mas e quando a empresa em que se trabalha tem uma cultura de uso intenso das redes sociais? A relações públicas Diana, 49 anos, nunca foi muito fã de expor sua vida nas redes – tinha uma conta aberta no Facebook, mas quase não postava. De vez em quando observava o que seus contatos publicavam e achava útil a função da plataforma de avisar datas de aniversários. Tudo mudou há dois anos, quando ela trocou o emprego no banco – onde estava há 13 anos – por uma agência de marketing e publicidade. “Comecei a notar um estranhamento dos colegas quando eu dizia que não tinha Instagram. Fiquei sabendo que alguns até me achavam antipática, por pensarem que estava escondendo meu perfil para ninguém bisbilhotar”, conta Diana.

Depois de algumas situações de climão gerado pela falta da plataforma de fotos, a RP abriu seu perfil. “Era sempre muito chato quando alguém tirava uma foto para postar, perguntava minha arroba para me marcar e eu dizia que não tinha Instagram. Acabei cedendo então”. Mas o que Diana tinha dado por resolvido, não parou por aí. Um de seus superiores no escritório sugeriu que ela passasse a postar os feitos e realizações de sua equipe em suas redes pessoais. “Ele me disse que era importante para que o time se sentisse prestigiado e que todos os meus pares na empresa faziam isso. Não posso dizer que fui obrigada, mas sugestão de chefe nunca é sugestão, a gente sabe…”

Casos como o de Diana são comuns por não haver uma regulamentação quando o assunto é rede social versus mercado de trabalho, pontua Carvalhal. “Deveria haver por parte das empresas a noção de que elas não são donas da imagem do funcionário. Hoje em dia se confunde muito isso”, diz o escritor. “Já ouvi relatos que se aproximavam do assédio moral”, completa.

Carvalhal acredita que, quando uma empresa pede que o funcionário poste algo, aquele deveria ser um trabalho remunerado, já que se trata de produção de conteúdo. Ele cita como exemplo vendedores de algumas lojas, que utilizam suas redes pessoais para fechar negócio, com o apoio da marca que representam. “Algumas oferecem um código aos seus vendedores onde disponibilizam descontos aos clientes em suas redes sociais. Percebemos que algumas pessoas se sentem mais, outras menos à vontade de fazer isso, mas é algo que de fato é quase como se fosse uma opção. Nesse sentido me parece mais coerente.”

Como aproveitar o melhor das redes

Apesar do cerco fechado, os especialistas acreditam que ainda dá para se manter fora das redes sociais – por mais que isso signifique “ficar de fora da festa” em alguns momentos. “Ninguém deve fazer algo por se sentir pressionado. Abrir uma conta depende do entendimento do quanto isso é relevante para cada um”, diz Juliene Salvan. “Porque você entende que isso te agrega e que tudo que é usado com equilíbrio não tem que fazer mal”. No entanto, todos concordam que uma conta bem administrada ajuda a construir reputação profissional.

Carvalhal diz que o primeiro passo para isso é ter em mente que as redes sociais são vitrines e tudo aquilo que se posta resulta numa imagem que vai ser formada sobre você. “Algumas pessoas falam sobre seus trabalhos, outros sobre suas vidas. Tem também alguns perfis profissionais humanizados: sou um arquiteto que mostro meus trabalhos, mas também minha família, minha casa e meu dia a dia. Com isso, conseguem se conectar com quem se interesse por esse tipo de conteúdo”, indica. “Mas o importante é ter a consciência de que tudo aquilo que você posta ajuda a criar uma imagem de você e que essa imagem precisa ser algo que vai se sustentar.”

Autenticidade também é a dica de Juliene. E, quando o assunto é trabalho, é importante também entender o feat cultural e ideológico que se tem com a empresa, “para que você não se veja em situações em que seja obrigado a não ser quem é”. “Nesse caso, o ideal é se manter isento de algumas polêmicas. Isso não significa deixar de dar sua opinião no X, mas que saiba fazer isso de forma respeitosa e educada”, diz a diretora de RH. “Divergir da empresa que você trabalha faz parte. Mas a maneira com que se aborda isso, é muito relevante.”

E se o objetivo nas redes é 100% profissional, relevância é a palavra de ordem, como explica a consultora de carreira Marcia Oliveira. “Compartilhe conhecimento. Não adianta postar uma foto dizendo que você esteve em um congresso ou concluiu algum curso”, indica. “Cite algo que aprendeu ali, as trocas que teve ou algo que seja útil para quem te acompanha. Senão vai ser apenas um post pretensioso.”

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