Preconceito contra profissionais com mais de 50 anos é realidade, mas funcionários seniores serão fundamentais no futuro


As empresas e também a economia do país lucram com a participação desse público no mercado de trabalho

Pouco antes de completar 50 anos, a analista de logística Roselaine Silva do Nascimento foi demitida durante a pandemia, após mais de uma década de serviço. Habituada a uma organizada rotina com planilhas de Excel, passou a dedicar oito horas diárias na internet em busca de vagas. Após mais de cem currículos enviados resultarem em silêncio ou negativas, a moradora de Canoas desconfiou que a idade atrapalhava. O receio foi confirmado ao fim de um processo seletivo presencial:

— Teu currículo é muito bom, mas estamos dando preferência a pessoas mais jovens. Qualquer coisa, te aviso, tá? — afirmou a recrutadora.

Rose ficou sem palavras.

— Então tá, aguardo teu retorno — respondeu a analista de logística, segurando a frustração na garganta.

Com o acúmulo de contas e a necessidade de sustentar filho e mãe, Rose participou de outra seleção e aceitou uma vaga como assistente, abaixo das responsabilidades às quais estava acostumada.

O trabalho entediava, mas ela nutria esperança de crescimento.

O jogo virou quando viu uma vaga no LinkedIn e foi recrutada, três meses atrás, para trabalhar no centro de distribuição da PepsiCo em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana. A multinacional norte-americana fomenta a contratação de profissionais com 50 anos ou mais por meio do programa Golden Years (“Anos Dourados”). Hoje, Rose atua novamente como analista de logística. Desafiada em uma posição à sua altura e que permite ascensão, ela está realizada, com sorriso de orelha a orelha.

— Há ainda no mercado uma cultura de que a pessoa de 50 anos é velha, mas isso é coisa do passado. A longevidade cresceu, e a idade de aposentadoria foi estendida, então vamos trabalhar até mais tarde. Não me vejo em casa fazendo tricô. Tenho 50 anos bem vividos, com muitas conquistas. O preconceito contra a idade existe, ainda mais para mulher — diz Rose.

Chefe de Roselaine na PepsiCo, a gerente de warehouse (“galpão”) Merlen Cândido, 30 anos, destaca que a nova funcionária é altamente qualificada e ensina os colegas a ouvir antes de falar. A dupla de Rose no trabalho é um colega de 25 anos.

— A Rose me ensina a escutar. Ela olha e espera nossa última palavra para daí falar. Minha geração é muito ansiosa — brinca Merlen.

O relato da analista reflete a realidade de milhares de brasileiros que compõem a força de trabalho “prateada”: trabalhadores seniores, com 50 anos ou mais, que enfrentam dificuldade para se reposicionar profissionalmente (o termo advém de “economia prateada”, que se refere ao consumo e à força de trabalho impulsionados pelo aumento da longevidade). A dificuldade é ainda maior para quem tem menos qualificação formal.

O preconceito com base em estereótipos acerca dos mais velhos tem nome – “etarismo” – e vai contra o Estatuto da Pessoa Idosa (EPI), segundo o qual são vedadas a discriminação e a fixação de limite máximo de idade em ambiente profissional. Todavia, não é como a realidade se apresenta. Pesquisa de junho da consultoria Ernst & Young em 181 empresas brasileiras mostrou que 78% acreditam que as organizações, no geral, são etaristas. Entre os líderes entrevistados, 50% contrataram menos de 10 pessoas com mais de 50 anos nos últimos cinco anos. Esse tipo de visão, dizem analistas, atrapalhará o Brasil do futuro, cada vez mais velho.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 214 milhões de brasileiros, 15% são idosos, ou seja, têm mais de 60 anos, segundo o EPI. Com o avanço da medicina, a parcela dos mais velhos cresce. Desde 1970, a proporção de pessoas nessa faixa etária triplicou e, desde 2010, avançou quase 50%. Entre todos os brasileiros, 108,3 milhões trabalham ou estão em busca de emprego. Idosos representam 7,3 milhões desse contingente, dos quais 78 mil estão em Porto Alegre. E esse grupo deve crescer.

Devido ao aumento da expectativa de vida e à redução no número de filhos por família, um fenômeno típico de países ricos se desenha no Brasil: a inversão da pirâmide populacional. Em 2047, o IBGE projeta que o país terá mais idosos do que crianças. E, até 2060, a cada três brasileiros, um terá mais de 60, segundo estima o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O problema é que, hoje, o mercado ainda não valoriza profissionais mais velhos. Atualmente, 63% das pessoas com 45 anos ou mais estão desempregadas há mais de um ano, ante 36% dos indivíduos de 18 a 34 anos, segundo estudo de julho do ano passado da ONG Generation.

O cenário preocupa especialistas porque, para além de pressionar a Previdência Social e o Sistema Único de Saúde (SUS), marcará uma realidade na qual faltarão jovens para sustentar as famílias – caberá aos mais velhos pagar as contas da casa. Empresas, por sua vez, terão dificuldade em encontrar profissionais qualificados se não recorrerem aos veteranos.

O Japão, um dos países mais velhos do mundo, já se deu conta disso. Uma lei oferece benefícios às empresas que mantêm idosos em seus quadros. Em 2020, 71% das pessoas de 60 a 64 anos trabalhavam. Uma iniciativa comum das empresas é aumentar a idade para aposentadoria compulsória.

A questão salarial
Mas o debate não é restrito a distantes países ricos. Porto Alegre é, ao lado de Vitória (ES), a Capital com maior proporção de idosos do país – 21,4% da população, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua Trimestral. A Câmara dos Vereadores da Capital aprovou, em agosto, projeto de lei para incentivar a contratação de idosos com o programa Ativa Idade. Quem contratar ao menos 25% de seus empregados com pelo menos 60 anos terá incentivos fiscais ligados ao Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISS). Será também criado um banco de currículos integrado com o Sistema Nacional de Emprego (Sine).

O texto depende de sanção do prefeito Sebastião Melo (MDB) e está em análise no setor jurídico da prefeitura. É obrigação constitucional da sociedade e do poder público assegurar o direito ao trabalho aos mais velhos, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquicas.

Para funcionários com alto nível de educação, todavia, o desemprego bate à porta sob o frequente argumento do salário alto demais – ao longo dos anos, empresas extinguiram benefícios como biênios e quinquênios, que incrementavam rendimentos. Profissionais extremamente qualificados, em muitos casos, precisam rever expectativas salariais. Foi o que fez o gerente de planejamento, controle e gestão Bernardo Fuerstenau, 50 anos. Morador de Porto Alegre, ele trabalhou em apenas duas empresas em 25 anos de carreira. Em janeiro deste ano, foi demitido em meio a uma reestruturação interna, mas a companhia pagou para ele um serviço de realocação na recrutadora Produtive. A iniciativa deu certo e, há uma semana, ele trabalha em uma empresa do setor automotivo. Empolgado e cheio de energia, ele reconhece que não voltou ao nível salarial anterior, mas prevê crescimento:

— Nas entrevistas de diferentes processos seletivos, sempre perguntavam: “Tua faixa salarial era mais alta, tem algum problema?” A questão é que mudou o perfil salarial em relação ao passado. As empresas achataram estruturas, reduziram lideranças e também salários. Dei um passo para trás na questão salarial para depois avançar. Se não tivesse feito isso, possivelmente não estaria empregado, ainda que minha motivação não fosse só o salário, e sim o projeto da empresa, que também tinha condições de crescer.

O mercado vive momento de achatamento salarial, e muitas empresas optam por profissionais de menor experiência que aceitam receber menos, analisa Anna Cherubina, professora de MBAs em Desenvolvimento de Carreiras da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio):

— Profissionais seniores não se submetem a isso. Mas algumas empresas estão se dando conta de que a senioridade faz falta. Quando um país se preocupa com isso, está se preocupando com a capacidade de produção desperdiçada e com a saúde mental, porque manter pessoas ativas diminui o custo com saúde pública.

Dicas para não perder espaço no mercado

O que empresas esperam dos 50+

Ampla experiência de trabalho
Humildade para seguir aprendendo
Vontade de compartilhar experiências
Abertura à diversidade e disposição para combater preconceitos, inclusive próprios
Capacidade de conviver com colegas e chefes mais jovens
Manejo de ferramentas tecnológicas básicas

Por que empresas querem os 50+

Necessidade de profissionais altamente capacitados
Perfil de alta resistência a pressão e resiliência a adversidades
Aumentar a diversidade das equipes
Refletir dentro da empresa desejos dos consumidores mais velhos
Reduzir rotatividade de funcionários
Promover trocas intergeracionais

Dicas para conseguir emprego

Busque vagas no LinkedIn e explique funções e resultados alcançados em cada emprego
Procure ex-colegas de trabalho. Se você não se mostrar, ninguém vai indicá-lo para uma vaga
Realize cursos de reciclagem. Há possibilidades gratuitas pela internet em universidades conceituadas e no Sebrae
Empreender é uma opção. Você pode montar uma empresa para treinar ou gerir funcionários da área
Atuar como consultor(a) é uma possibilidade para quem exerceu, ao longo da vida, funções altamente especializadas
Cogite especializar-se em uma das funções do antigo trabalho. Se você era faxineira, foque em cozinhar ou passar roupas para uma família

 

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