Os guerreiros Massai e as propostas douradas de trabalho


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Artigo de Rafael Souto publicado em agosto de 2014 em sua coluna Novas Conexões, no Valor Econômico:

O mercado de trabalho brasileiro mudou drasticamente nos últimos anos. Até a década 1990, as empresas aproveitaram o excesso de mão de obra disponível. O desemprego era uma benção para os contratantes, que faziam de tudo com os famintos profissionais desesperados por uma vaga.

Num país com hiperinflação, sem moeda confiável, formado por empresas obsoletas por anos de economia fechada e com um regime político que deteriorou a competitividade, as pessoas não tinham opção. Era fácil contratar. Os que viveram naquele período se lembram das filas nas agências de emprego e nas portas das empresas.

O mercado mudou. Com a estabilidade econômica e mesmo com nossa incrível incompetência para buscar eficiência, a economia ganhou força e as empresas passaram a disputar profissionais. Com uma oferta maior de trabalho, as pessoas começaram a fazer escolhas – e a discussão sobre planejamento de carreira passou a integrar a vida de quem está no mercado.

Nos anos 2000, entramos numa nova era. Não basta uma proposta de emprego, os profissionais querem mais. Querem um propósito, uma causa em que acreditem. Também passaram a discutir qualidade de vida, valorizando o equilíbrio entre trabalho e suas escolhas fora das empresas. Passaram a questionar os entrevistadores nos processos seletivos. Buscam conhecer detalhes do projeto de trabalho.

Ainda hoje, vemos recrutadores incomodados com candidatos muito ousados. Eles ainda gostariam de ver esses possíveis contratados esperando por horas na recepção, submetidos a testes ridículos e assistindo à poderosa empresa escolher quem quiser, sem ser questionada. Doce ilusão. Indivíduos de alta empregabilidade querem discutir e também selecionar seu futuro projeto.

As empresas mais atentas perceberam essa realidade. Com a nova ordem corporativa de contratar talentos, surgiram equipes especializadas em buscar os melhores profissionais. Apareceram os chamados “talent acquisition”. São os antigos profissionais de recrutamento e seleção com uma roupagem contemporânea. Com a missão de contratar pessoas altamente qualificadas num mercado limitado de opções. Eles funcionam como o povo Massai. Os Massai são guerreiros tribais nômades que habitam regiões do Quênia e da Tanzânia. Eles caçam com alto grau de dificuldade porque estão cercados de leões e perigos das savanas africanas. Desenvolveram técnicas em centenas de anos para lidar com a adversidade do ambiente e cumprir sua missão: alimentar a aldeia.

Já nossos “talent acquisition”, os Massai do século 21, desenvolveram técnicas inteligentes para formar seu banco de talentos. Qualificaram suas entrevistas, começaram a trabalhar a marca empregadora, redes sociais e diversos mecanismos para atrair suas caças.

Mas muitos deles e seus gestores exageraram na dose e se especializaram em dourar as propostas de trabalho. A arte de atrair pessoas qualificadas gerou um perverso efeito colateral. Simples de explicar e muito caro para as carreiras: alterar a realidade na proposta de trabalho, minimizando as dificuldades da empresa ou ampliando o lado positivo dos projetos.

Manoela Ziebell, que lidera a prática de análise de turnover da Produtive, concluiu seu doutorado em turnover voluntário (pedido de demissão de um profissional) e um dado me chamou a atenção: 56% das pessoas que pedem demissão de uma empresa no primeiro ano de trabalho dizem que foram motivadas pelo desalinhamento do projeto apresentado e a realidade. De forma mais simples, se sentiram enganados.

Esta informação nos ajuda a compreender o tamanho do problema. As empresas querem profissionais cada vez mais qualificados, com múltiplos idiomas, formação educacional de primeira linha, experiências perfeitamente alinhadas ao seu projeto empresarial.

Elaboram os perfis analisando suas necessidades e desconsideram o mercado. Isso leva a longas listas de vagas nunca preenchidas e também ao efeito das propostas douradas. Quando o raro candidato que preenche a interminável lista de requisitos é encontrado, ninguém pode perdê-lo. Assim, o risco da apresentação de uma realidade mais colorida para seduzir o profissional aumenta muito.

Talvez possamos aproveitar o arrefecimento da economia para repensar as políticas de contratação de pessoas e diminuir o tamanho da esquizofrenia.

E, para aqueles que estão no mercado em busca de oportunidades ou são assediados por propostas: preste atenção nos guerreiros Massai. Um deles pode estar sentado na sala de sua próxima entrevista.

Rafael Souto é sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado

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