O menino entusiasmado e o comandante sem paixão


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Novo artigo de Rafael Souto publicado na edição de 30 de julho em sua coluna Novas Conexões:

Num dos meus constantes voos entre São Paulo e Porto Alegre, vivi uma experiência marcante. Sentei numa poltrona na janela e logo atrás ouvi a voz de um menino entusiasmado. Conversava com seu pai sobre o avião e tudo o que acontecia em volta. Perguntava como aquele imenso bloco de aço iria sair do chão. Queria saber de tudo.

Como também sou curioso e apaixonado por aviação, as falas do menino de alguma forma também eram minhas. Quase ao final do embarque, sentou ao meu lado um piloto, com seu traje completo de comandante. Estava em trânsito. A conversa que logo iniciamos sobre aviação foi inevitável.

Ele me contou que estava indo para Porto Alegre em função de uma escala. Conversamos sobre a crise econômica e o impacto nas empresas. E, logo em seguida, questionei sobre como deveria ser incrível voar naquelas máquinas modernas e cada vez mais tecnológicas. Com ar cansado, o comandante tirou do bolso uma folha. Aquele papel amassado trazia sua escala de voos. Ele disse que com aquela rotina ninguém voava feliz. A sobrecarga e a pressão tiravam o prazer de trabalhar. Ele cumpria a tabela. Enquanto isso, a fala daquele aviador provocava em mim uma profunda reflexão.

Neste mês de julho, tive a oportunidade de apoiar a vinda do pesquisador e professor britânico Richard Barret ao Brasil. Barret estuda os valores e seus impactos nas pessoas e organizações. Valores no sentido de crenças e princípios.

O trabalho de Barret usa um modelo de sete níveis de consciência. Nos estágios iniciais, os indivíduos estão focados em sobrevivência. Nas fases mais evoluídas estão preocupados com o bem comum. Como referência, a pirâmide de Maslow na qual na base temos necessidades mais primordiais de sobrevivência e no topo desejos mais sofisticados. O mesmo raciocínio vale para o sistema de valores das organizações. No topo desse conjunto de princípios estão ética, moral e contribuição com a sociedade. Na base estão aspectos como resultado financeiro e processos. É um processo de desenvolvimento.

A pressão por resultados e lucro de curto prazo afastam essa discussão das organizações. A competição em oceano vermelho, com margens baixas e resultados cada vez mais difíceis, é um limitador. Não temos tempo e nem foco em discussões de valores como justiça, ética, felicidade e família. Nossas empresas estão lutando para sobreviver.

Essa batalha pelo lucro e pelo retorno do capital ao acionista não é suficiente para mover as pessoas. Ninguém trabalha pelo acionista. As pessoas produzem pelo propósito. No jogo corporativo atual, o resultado financeiro, além de ser o primeiro fator, em muitos casos é o único. Executivos com o olho no curto prazo e no bônus. Pouco interessados no futuro da organização. Esse comportamento não é inspirador.

O ambiente tóxico tem afetado a saúde dos profissionais, como apontou um estudo que fizemos há alguns anos, publicado nesse jornal. Chamava-se “executivos tarja preta” porque apontava que um número próximo a 20% dos profissionais entrevistados usavam medicamentos regulares para dormir e controlar ansiedade.

Eu compreendo o jogo corporativo. O retorno financeiro é fundamental. Desenvolver estratégias vencedoras, conquistar clientes e ganhar mercado são movimentos essenciais para os negócios. Mas parece que o jogo do jeito que está colocado dá sinais de fracasso. Estamos terminando com a paixão das pessoas. Precisamos pensar no rumo que estamos dando às nossas empresas e ao nosso país. Uma reflexão sincera sobre nossos valores e propósitos para que aquele menino entusiasmado do voo não termine amassado pelo sistema.

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