O Fórum Econômico de Davos e o executivo sem espelho


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Novo artigo de Rafael Souto, CEO da Produtive, publicado na edição de 19/fevereiro do jornal Valor Econômico, em sua coluna Novas Conexões:

No último mês de janeiro, foi realizado no Fórum Econômico de Davos um debate sobre os BRICS (grupo de países composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Os representantes dos países eram mediados pelo hábil jornalista Silio Boccanera. Também como convidado participou Carlos Ghosn, presidente do grupo Nissan Renault.

As perguntas giravam em torno dos temas de crescimento econômico, inflação e competitividade. Observei a clareza das colocações do representante chinês, que disse não ser mais possível que a economia do gigante asiático cresça dois dígitos. Citou problemas como inflação e os desafios de infraestrutura para uma enorme população que representa um quinto do planeta.

Na fala do indiano também ouvimos com objetividade os desafios do emergente. O russo reconheceu a estratégia de reposicionamento geopolítico do governo e os impactos na economia. Deixou claro que essa escolha previa os riscos de represália internacional e enfraquecimento de sua economia. Embora o caminho de conquista territorial pela força soe como uma tirania de Putin, a estratégia estava bem definida.

Na África do Sul também observamos com clareza os pontos a serem enfrentados, incluindo questões de uma jovem democracia que ainda está vencendo o preconceito racial.

Já na vez do representante brasileiro, fiquei perplexo. Diante de uma questão direta sobre como lidar com o baixo crescimento, a resposta veio no tom de “veja bem”, seguida de uma série de explicações que não atacavam o ponto central. E assim foi: respostas evasivas e sem clareza dos passos a serem seguidos. Confesso que senti vergonha alheia. Vergonha da falta de visão e estratégia para resolver os problemas. A negação das dificuldades e incapacidade de determinar objetivos é uma condenação inequívoca ao fracasso.

Citei esse encontro de Davos para relacionar com minha percepção sobre muitos executivos no que se refere ao planejar sua carreira, aos movimentos de transição e seu desenvolvimento. Vivemos a cultura do infalível. Reconhecer erros e limitações é cada vez mais difícil. A escolha pelo caminho de explicações externas e transferência de culpa parece ser a estratégia preferida de muitos profissionais. Minhas conversas com muitos executivos parecem ser uma cópia do modelo que o ministro brasileiro usou em Davos. Minimizar o problema e responsabilizar terceiros pelos erros.

A mesma ausência de clareza aparece no tema de planejamento de carreira. Muitos profissionais têm uma visão sobre o que pretendem no futuro, mas poucos conseguem estruturar os passos para chegar lá. E o principal componente é planejar no tempo como alcançar os objetivos.

Com frequência reclamam das empresas que buscam resultados no curto prazo, mas não têm coerência na velocidade que esperam suas promoções.

Certa vez conversei com um executivo de RH e perguntei o que ele mais valorizava num profissional. Ele me disse de maneira simples e clara: saber o tamanho da cadeira que pode sentar.

Ouvi isso há quase 20 anos e me parece fazer todo o sentido.

Fomos criados num país instável, com baixa previsibilidade. Vivemos anos com hiperinflação, ditadura, desconfiança no sistema financeiro, baixa competitividade e modelos de trabalho em que as carreiras eram totalmente geridas pela empresa. Esse período de trevas para estratégia e gestão de carreira durou até os anos 90. De lá para cá, as condições do mercado de trabalho mudaram e a possibilidade de construir projetos de médio e longo prazos se tornou possível.

Mas, para isso, é necessário ter clareza sobre seu momento profissional, pontos de desenvolvimento e objetivos.

Quando colocamos juntas a cultura do executivo infalível e o desejo de rápido crescimento profissional, estamos correndo o risco de gerar graves distorções sobre o correto valor de uma carreira no mercado.

A construção de uma história profissional sólida exige tempo e ciclos de trabalho consistentes nas empresas.

Assim como nosso ministro em Davos, todo profissional precisa de um espelho bem calibrado para gerir sua carreira.

Rafael Souto, CEO e sócio-fundador da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado

 

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