Job Crafting: a nova revolução no mundo do trabalho


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Artigo de Rafael Souto, CEO da Produtive, publicado em sua coluna Novas Conexões, no Valor Econômico, na edição de 22 de julho do Valor Econômico:

Tenho sido um crítico feroz do mundo corporativo. Escrevi alguns artigos nessa coluna sobre a complexa vida dos executivos e os dramas organizacionais. O jogo de mentiras empresariais e a tirania dos resultados de curtíssimo prazo também fazem parte do conjunto das minhas inquietudes.

Desta vez, escrevo sobre um fenômeno positivo que não resolve plenamente essas questões, mas pode ser um atenuador dos tormentosos ambientes empresariais.

O conceito de job crafting foi desenvolvido pelas pesquisadoras norte-americanas Amy Wrzesniewski e Jane Dutton, em 2001. Embora não seja novo, está mais atual do que nunca. Diz respeito às ações que os profissionais fazem para alterar as atividades, relações no trabalho ou significado do que fazem, em busca de realização e entrega de melhores resultados.

O job crafting é a antítese do job description. Ou seja, fazer job crafting é agir de forma diferente ao que está descrito nas atividades, interagir com outras pessoas na empresa e buscar um sentido mais amplo para aquilo que se faz.

Essa forma de realizar atividades também tem relação direta com o nível de engajamento. O pesquisador europeu Wilmar Schaufeli ilustra o assunto. Os estudos apontam que os profissionais que conseguem organizar suas atividades com maior autonomia são mais engajados. A relação parece evidente. Aqueles que sentem mais espaço para criar e construir sua arquitetura de trabalho tendem a se conectar mais com a organização pelo fato de serem mais donos de suas atividades. O protagonismo na carreira tem relação direta com o job crafting.

O tema ganha mais importância se analisarmos os movimentos econômicos das últimas décadas. A pressão competitiva em que as empresas estão submetidas reduziu sensivelmente os níveis hierárquicos e os recursos disponíveis. O mantra da competitividade é fazer mais com menos. Essa escassez de recursos exige que os profissionais façam adaptações nas suas rotinas e na forma de executar atividades para alcançar resultados. Nesse contexto, fazer job crafting é questão de sobrevivência. Sem ele, torna-se muito difícil a concretização dos resultados.

Conectando o tema com o Brasil, tivemos uma mudança importante iniciada nos anos de 1990. A economia brasileira, até então isolada do mundo, começou a ser aberta. Essa alteração iniciou uma nova fase nas relações de trabalho. A competição mudou a lógica do emprego. Longos períodos na mesma empresa foram substituídos por ciclos mais curtos. Os profissionais tiveram que aprender a competir no mercado e lidar com sua empregabilidade. Os mais adaptáveis tiveram melhor sorte. A reengenharia que as empresas sofreram fez surgir um novo pensar sobre a gestão da vida profissional. Foi o inicio da caminhada para a autogestão de carreira. Essa proatividade tem relação direta com o job crafting.

Os estudos de Wrzesniewski e Dutton mostram que o job crafting incrementa a satisfação no trabalho. As análises de outro pesquisador, Arnold Bakker, afirmam que os mais engajados tendem a fazer mais modificações no seu trabalho em busca dos resultados. Ou seja, existe uma relação bidirecional. O job crafing aumenta a satisfação e os mais felizes fazem mais essas customizações no trabalho. É um ciclo virtuoso de trabalho e satisfação.

Com isso, podemos afirmar que o job crafting é desenvolvido em ambientes de alta exigência por pessoas proativas, motivadas pelo crescimento profissional e que percebem a necessidade de fazer essas mudanças no seu trabalho.

As empresas enfrentam um cenário feroz de competição com desafios crescentes. Portanto, contar com job crafters deveria ser uma benção corporativa. Porém, quando verificamos a forma de gerir de boa parte das empresas que clamam por profissionais criativos e inovadores, nos deparamos com estruturas controladoras e com executivos com dificuldade de lidar com o contraditório. Sou um entusiasta da ideia do job crafting. Acredito que é uma prática inteligente para lidar com os desafios contemporâneos. Mas, finalizo com certo receio de que esses raros profissionais sejam extintos no buraco negro entre o discurso e a prática das organizações.

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