Guerreiros cansados e intoxicados pelo próprio veneno


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Artigo de Rafael Souto publicado na edição de 22 de outubro em sua coluna Novas Conexões, no jornal Valor Econômico:

Rafael Souto

O mundo corporativo vem produzindo com velocidade espantosa um número cada vez maior de executivos infelizes, exaustos e frustrados com suas carreiras.

Parece importante entendermos o porquê desse crescente aumento da pressão e da toxicidade dos ambientes corporativos. A principal razão está na mudança profunda da economia nos últimos 20 anos.

Os fenômenos de globalização e crescimento da competição entre empresas trouxeram uma nova e complexa realidade para as organizações. Os consumidores foram os grandes beneficiados desse movimento. Conseguiram maior oferta de produtos e serviços com preços menores.

A competição desenvolveu o mercado. O efeito colateral foi a pressão interna nas organizações. Com lucros mais difíceis de serem alcançados as empresas tiveram que reduzir custos, eliminar postos de trabalho e fazer mais com menos.

Por outro lado, a partir dos anos de 1990, os profissionais despertaram para a gestão de suas carreiras e pela perspectiva de crescimento profissional nesse novo mercado. As pessoas começaram a buscar o protagonismo na carreira que, até então, era gerida pela empresa.

Uma equação difícil de ser resolvida estava formada: pessoas cada vez mais ambiciosas e empresas com organogramas mais enxutos. Muita pressão por resultados e alta competição interna e externa.

Esse processo segue em curso, entre ciclos de crescimento e recessão, os ambientes de trabalho vão se tornando cada vez mais ásperos.

As agendas pessoais parecem estar à frente dos interesses da empresa. O profissional sabe que pode ser demitido a qualquer momento e que o que de fato importa são os resultados de curto prazo. Portanto, faz o jogo: “em caso de emergência coloque a mascara de oxigênio primeiro em você”. Nesse pensamento altamente individualista, o tempo é consumido em articulações políticas para manutenção do poder. O resultado que vale é aquele que o mantém no cargo.

Tenho questionado aos executivos com os quais converso sobre o tempo gasto nas construções políticas na empresa. Com frequência, as respostas falam em mais de 50% do tempo despendido com manobras e reflexões de como fazer coisas para se manter na organização. Os resultados são consequência do que for necessário na articulação política. Inclusive encontrar culpados quando as coisas não dão certo.

Nesse conjunto de rotinas tóxicas, os executivos vão vivendo e tentando produzir.

Em algum momento da vida, a frustração aparece. A análise mais profunda do tempo perdido e da falta de sentido da vida toca fundo na alma do guerreiro corporativo. O questionamento sobre valores e propósito aparece na agenda que antes só se ocupava com o bônus. O desejo de mudança e da luta por algo diferente assume fundamental importância.

Não acredito que as modificações nesse sistema possam vir das organizações. Imaginar um ambiente que permita mais equilíbrio no desenho de vida não me parece ser mais do que um discurso nas empresas. Usar calça jeans na sexta-feira não resolve o problema.

Mesmo as boas empresas estão aprisionadas num mercado complexo e de difícil sobrevivência. Elas precisam tirar o máximo de cada um.

Acredito que a mudança virá do indivíduo. A única possibilidade de solução é a partir da revisão da estratégia desse desenho de vida. Sair dessa ciranda de crescimento a qualquer preço e abrir mão de cargos e bônus é um caminho. Buscar outras formas de trabalho, como empreender, trabalhar part-time ou por projetos temporários.

Determinar um conjunto de escolhas na arquitetura de vida pode – e fatalmente irá – limitar a ascensão profissional. Temos que assumir que há incompatibilidade entre carreira executiva de alto nível e escolhas do tipo almoçar em casa com a família ou não querer mudar de cidade.

É um movimento árduo, como explica o autor Nigel Marsh, quando diz que passamos a vida acumulando dinheiro para comprar o que não precisamos para aparecer para aqueles de quem não gostamos.

Estamos na era do accountability. Numa tradução simplista, algo como responsabilização. A expressão que surgiu nas empresas de contabilidade e auditoria foi expandida para outros campos do mundo corporativo. O accountability de carreira é assumir a responsabilidade pelo que faz na condução de sua trajetória. De forma muito direta é não transferir a culpa. Assumir suas decisões e não se vitimizar. O jogo corporativo é esse: você pode escolher jogar no nível mais alto ou assumir que terá perdas e abrir mão de algumas doses do veneno.

Rafael Souto é sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado

 

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