As angústias, erros e riscos do sonho de empreender


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Artigo de Rafael Souto publicado na edição de 17 de dezembro do Valor Econômico, em sua coluna Novas Conexões:

Rafael Souto

O modelo tradicional do emprego para a vida toda faz parte do século passado. A visão contemporânea de carreira exige que os profissionais pensem em novas formas de produzir e gerar renda. Pensar apenas no emprego é uma estratégia perigosa. A redução das estruturas formais nas empresas é um fenômeno que integra o cardápio da gestão moderna. Fazer mais com menos. Os organogramas estão enxutos. Esses movimentos podem ser mais agudos nos períodos de crise como a que estamos vivendo desde o ano passado. Mas a redução das estruturas e a pressão que limita a empregabilidade das pessoas não são um fenômeno recente.

Além disso, estamos vivendo mais tempo e o emprego formal tem prazo de validade. Por mais que os contratantes façam um discurso politicamente correto, o emprego para pessoas com mais de 50 anos vai se tornando escasso. Longevidade maior e pressão sobre o emprego exigem novas reflexões sobre o trabalho.

Na construção dessas alternativas, muitos enxergam no empreendedorismo uma nova rota profissional. E aí a vida muda. E não se trata apenas de ter ou não sucesso no negócio – embora isso seja certamente relevante –, mas sim de uma transformação do modelo mental.

O software interno, acostumado desde o início da vida produtiva a ser funcionário de uma organização, estranha a nova forma de trabalhar.

Chamamos esse movimento de maxi-ciclo de carreira. Trata-se de uma profunda transformação no seu papel como trabalhador e na forma de produzir. Uma pessoa pode ter vários empregos ao longo da vida. São mudanças que podem gerar alguma ansiedade, mas fazem parte do mesmo modelo. Já a atividade empreendedora é uma mudança de maior impacto. A zona de conforto desaparece.

A verdade é que não somos preparados para empreender. A maior parte dos profissionais que estão no mercado foram orientados por seus pais para estudar e ter um bom emprego. A mente é preparada para fazer parte de uma organização.

As angústias começam pela incerteza de renda. A ausência de um salário fixo gera desequilíbrio no planejamento financeiro de quem sempre foi acostumado com a previsibilidade de seus ganhos. O antídoto é o planejamento financeiro rigoroso, que permita montar o empreendimento e manter a vida pessoal enquanto o negócio ganha fôlego. E mesmo naqueles que possuem reservas financeiras consideráveis, o efeito psicológico de investir e só ver os sinais vermelhos na conta produz uma tremenda dor de cabeça. Por mais que saibam que o ponto de equilíbrio e o retorno do investimento podem demorar, o executivo acostumado a correr risco com o capital dos outros sofre quando o drama está no seu bolso.

Outro problema é a perda da estrutura corporativa. No início, o dono de um pequeno negócio faz tudo na empresa: desde assinar os principais projetos até servir cafezinho ao cliente. Também é difícil lidar com a redução do nível intelectual das discussões. Enquanto o executivo empregado discutia estratégias com seus colegas, no seu novo negócio fica desesperado ao ter de lidar com os pequenos problemas operacionais, como o telefone que parou de funcionar e o funcionário que não consegue resolver problemas básicos.

Salvo as exceções de empresas que começam com jeito de corporação, os negócios têm um início pequeno e sem requintes. Essa perda de status deixa em muita gente um gosto amargo e o pensamento de que deveria voltar a ter um crachá corporativo.

Um dos maiores erros dos empreendedores iniciantes é associar a abertura de um negócio a uma vida com mais liberdade. Livre é o funcionário, que pode pedir demissão e ir embora quando não estiver mais satisfeito no emprego. Empreender não tem nada a ver com liberdade ou com ter mais qualidade de vida.

Ser o próprio chefe dá trabalho, exige tempo de dedicação e cria amarras que não são fáceis de soltar. O Brasil é um país hostil ao empreendedor – para o que abre e também para o que fecha a sua empresa. Quem precisar encerrar um negócio vai ter de percorrer uma maratona de burocracia.

É louvável concluir que o ciclo do emprego foi encerrado. Iniciar um negócio próprio pode ser um movimento inteligente de carreira. O equívoco é executar um projeto baseado em ilusões ou pressionado pela falta de opções. O empreendedor com chances de sucesso é aquele que acredita na sua ideia e desenvolve um negócio consistente. Empreender é um sonho possível, desde que com planejamento e sem a fantasia da fuga do emprego.

Rafael Souto é sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado

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